A rã solitária
Era uma vez uma rã que vivia num charco. Vivia sozinha. O charco também era pequeno.
Sentia a falta de outras rãs, para lhe fazerem companhia e coaxarem ao despique nas noites de Lua cheia. Sentia que, se outras rãs vivessem com ela, podia nadar de bruços com mais folgança, velocidade, estilo… Sentia que os saltos que dava para dentro de água, à falta de espectadores, nem jeito nem graça tinham.
Enfim, a rã deste pequeno charco sentia-se muito só.
Desamparada. Infeliz.
Perguntem, se fazem favor, porque é que a rã se não mudava para charco mais amplo e povoado?
Porque temia que tão perto não houvesse outro. Ora, como devem saber, as rãs detestam perder tempo a saltar em seco. A água faz-lhes falta. Sem ela, perdem o luzidio da pele e a força de vida. Não sabiam?
Um dia, começou a chover que nunca mais parava. Dia e noite. Noite e dia.
Os campos ficaram alagados. Os rios sobraram do leito.
Pequenos charcos, afastados uns dos outros, juntaram-se num enorme lago.
Foi uma inundação terrível. Veio nos jornais e a televisão deu notícia. Casas de que só o telhado se via.
Animais afogados. Gente a ser salva em barcaças por bombeiros. Uma desgraça.
Mas como esta história pertence à rã, esta história tem um fim feliz. A rã, passada a tempestade, encontrou companhia. Dezenas de rãs coaxam agora, em coro, glorificando a chuva, a abundância das águas, o abraço do lago imenso que as juntou.
Aqui entre nós e em segredo vos peço que nunca contem esta história a pessoas que tenham sofrido os efeitos trágicos de uma inundação. Não iam gostar.
António Torrado
www.historiadodia.pt
segunda-feira, 12 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Paulo Medeiros: "Elevem-se as Gentes que amam a sua Cultura".
O artista plástico Paulo Medeiros publica no blog um trabalho seu com o título: "Elevem-se as Gentes que amam a sua Cultura".
Antígona, de Sófocles
O trágico destino do parricida e incestuoso Édipo, não foi suficiente para diminuir a ira dos deuses. A maldição pelo seu crime se estende a toda sua descendência. Seus filhos, Polinices e Etéocles, morrem lutando às portas de Tebas, um pela espada do outro. Polinices se aliou aos guerreiros de Argos para derrubar a tirania de Creonte, seu tio, defendido por seu irmão Etéocles. Creonte, para evitar novas revoltas em seu reino, concede a Etéocles as honras da sepultura e ordena que Polinices permaneça insepulto, sem homenagens fúnebres e entregue aos abutres. Decreto que deixa Antígona e Ismênia, irmãs dos mortos, em delicada situação: seguir a lei dos homens (decretada por Creonte) ou a lei divina (as mulheres da família devem honrar seus mortos)? Antígona escolheu seguir a lei divina. Convidou Ismênia para juntas cumprirem os funerais do irmão. Ismênia, com receio da ira de Creonte, repreende a irmã e decide não tomar parte nessa loucura. Antígona faz tudo sozinha. Logo cedo se espalha a noticia de que o decreto real fora violado e não tardou para que Antígona fosse descoberta e condenada a ser emparedada viva (para que o rei não se sujasse com esse sangue derramado). Seu crime: a piedade pelo irmão insepulto. Creonte, por atentar contra as leis divinas (leis-não-escritas), fora advertido pelo cego adivinho Tirésias, que sofreria a ira dos deuses. Sua descendência estaria condenada à desgraça. Hêmon, filho de Creonte é noivo de Antígona e também tenta mudar a idéia do pai de punir a noiva. Creonte não o escuta. Hêmon decide morrer com a amada e foge do pai dizendo que nunca mais quer rever seu rosto. Antígona foi encerrada em uma caverna com uma porção de comida que dê para um dia, para que a cidade não fosse maculada pelo sacrilégio. O velho Tirésias volta a falar com Creonte em seu palácio a respeito do castigo que os deuses reservam para o rei se este não voltasse atrás em seu injusto decreto. Consegue convencê-lo e Creonte vai com suas próprias mãos sepultar Polinices e libertar Antígona. Após realizar os rituais fúnebres do cadáver já devorado por cães, dirigindo-se para a gruta onde está Antígona ouve um grito alucinante. Corre para dentro do tumulo e encontra Hêmon segurando o corpo de Antígona que se enforcou com o próprio cinto. Ao ver o pai, Hêmon o responsabiliza pela morte de sua amada e saca sua espada contra ele. Creonte escapa do golpe, mas Hêmon vergando a espada contra si próprio, crava-a no peito com furor e morre ao lado de sua noiva. Creonte desolado toma o filho nos braços e corre para seu palácio. Mas, a noticia do acontecimento corre mais rápido e quando ele chega Eurídice, sua esposa, tão logo soube da morte de Hêmon, desferiu um profundo golpe com um ferro pontiagudo no fígado e já sem vida recebeu Creonte no palácio. A rainha morreu lançando sobre o marido a culpa pela morte de seu filho. O rei amaldiçoado e infeliz já não quer mais viver e aguarda com sua culpa a vinda de outra morte pelos seus desejos: a sua própria.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
É (de)gustar
É (DE)GUSTAR
Os dias contados do porco
Gustave está de volta para falar aos seus fiéis leitores dos dias contados do porco, por estarmos em época de fazer tremer qualquer porco que se preze. E vai lembrar-vos a história da Quinta do Solar que era, por fora, igual a tantas outras de Inglaterra. Mas os animais, ali, sonhavam viver livres da exploração dos homens. Guiados por um porco, o Velho Major, expulsaram de lá o bêbado Sr. Jones, seu proprietário e criaram naquela quinta, que agora se chamava “dos Animais”, um novo regime – o Animalismo. Em que era proibido matar outros animais, andar sobre duas pernas, usar roupas e beber álcool. Não haveria mais propriedade privada, todos os animais seriam iguais, os frutos do trabalho repartidos fraternalmente e as decisões tomadas em assembleias, sem privilégios. Assim foi até que outro porco, Napoleão, assumiu a administração da quinta. Passando logo a mentir, a trair e a ter outros vícios humanos. Já não sendo mais possível “distinguir quem era homem e quem era porco”. Não foi por acaso que Orwell em “A Revolução dos Animais” (“Animal's Farm”), escolheu um porco para liderar os outros animais, nessa revolução. Por lhe sobrar esperteza e malícia. Assim foi desde o princípio dos tempos, quando sobreviviam em florestas de sobreiros e azinheiras. Eram mais ferozes e mais robustos, presas afiadas, visão pouco precisa, audição e olfacto bem desenvolvidos. “Sanglier”, nome francês do javali, vem do latim “singularis”, que significa, precisamente, solitário. Foi dos primeiros animais a serem domesticados pelo homem. Depois da ovelha, do cão e da cabra; mas antes da vaca, do burro, do cavalo e do dromedário. A primeira receita conhecida vem da China (500 a.C.) – porco recheado de tâmaras, envolvido em palha misturada com argila; assado em buraco com brasas, coberto com terra. Os dias contados do porco são marcados por amores e desamores. Até nos textos sagrados. O Levítico (11, 2 a 8) ensinava aos judeus que entre todos os animais da terra podiam comer todo o animal que tivesse a unha fendida e o casco dividido e que ruminasse. Mas não podiam comer aqueles que só ruminavam ou só tivessem a unha fendida... como o porco que tem a unha fendida e o pé dividido, mas não rumina. Na Grécia, é citado por quase todos os pensadores. Homero refere-se, na Odisseia, a Circe, que transforma os companheiros de Ulisses em porcos. Hércules enfrenta o javali de Erimateia. E Teseu, a porca de Crommyon. Na idade média a carne de maior prestígio, em toda a Europa, era a de porco. Além de saborosa, essa carne definia, nos tempos da inquisição, cristãos (os que a tinham à mesa) e judeus (proibidos desse consumo). Porcos eram engordados com restos de comidas, na “corte” – nome dado a pocilgas situadas junto às casas, sendo a matança desses porcos “exemplo supremo de festa lúdica”. Fazia-se “o cozido da matança” com carnes frescas ou salgadas (rabo, orelha, barbela, focinho), além de enchidos (chouriço, linguiça, cacholeira e farinheira), de porco morto no ano anterior. Do porco tudo se aproveita. Mas o porco vem mudando, com o tempo. O de hoje é “light”. Tem menos gordura, mais músculo e mais carne no lombo (a mais apreciada). Por meio de cruzamentos e mudanças na dieta, perdeu cerca de 30% de sua gordura primitiva, 14% de calorias e 10% de colesterol, julgo saber. Como se não bastasse, o porco também fornece órgãos para serem transplantados no homem, tendo as suas válvulas para implante no coração melhor qualidade e mais aceitação que as de material sintético. Com tantas qualidades, já se vê o quanto de injustiça há na fama que têm os porcos na nossa cultura. Talvez pensando nessa injustiça, em sua defesa veio o estadista inglês Winston Churchill. É dele a observação, generosa, de que “cães olham para si de baixo para cima. Os gatos olham para si de cima para baixo. Só os porcos olham para si olho no olho, como iguais”. Apesar de tantos arroubos, um dos seus pratos preferidos era precisamente porco.
Gustave Gousteau, in Jornal Beirão, 2009
Os dias contados do porco
Gustave está de volta para falar aos seus fiéis leitores dos dias contados do porco, por estarmos em época de fazer tremer qualquer porco que se preze. E vai lembrar-vos a história da Quinta do Solar que era, por fora, igual a tantas outras de Inglaterra. Mas os animais, ali, sonhavam viver livres da exploração dos homens. Guiados por um porco, o Velho Major, expulsaram de lá o bêbado Sr. Jones, seu proprietário e criaram naquela quinta, que agora se chamava “dos Animais”, um novo regime – o Animalismo. Em que era proibido matar outros animais, andar sobre duas pernas, usar roupas e beber álcool. Não haveria mais propriedade privada, todos os animais seriam iguais, os frutos do trabalho repartidos fraternalmente e as decisões tomadas em assembleias, sem privilégios. Assim foi até que outro porco, Napoleão, assumiu a administração da quinta. Passando logo a mentir, a trair e a ter outros vícios humanos. Já não sendo mais possível “distinguir quem era homem e quem era porco”. Não foi por acaso que Orwell em “A Revolução dos Animais” (“Animal's Farm”), escolheu um porco para liderar os outros animais, nessa revolução. Por lhe sobrar esperteza e malícia. Assim foi desde o princípio dos tempos, quando sobreviviam em florestas de sobreiros e azinheiras. Eram mais ferozes e mais robustos, presas afiadas, visão pouco precisa, audição e olfacto bem desenvolvidos. “Sanglier”, nome francês do javali, vem do latim “singularis”, que significa, precisamente, solitário. Foi dos primeiros animais a serem domesticados pelo homem. Depois da ovelha, do cão e da cabra; mas antes da vaca, do burro, do cavalo e do dromedário. A primeira receita conhecida vem da China (500 a.C.) – porco recheado de tâmaras, envolvido em palha misturada com argila; assado em buraco com brasas, coberto com terra. Os dias contados do porco são marcados por amores e desamores. Até nos textos sagrados. O Levítico (11, 2 a 8) ensinava aos judeus que entre todos os animais da terra podiam comer todo o animal que tivesse a unha fendida e o casco dividido e que ruminasse. Mas não podiam comer aqueles que só ruminavam ou só tivessem a unha fendida... como o porco que tem a unha fendida e o pé dividido, mas não rumina. Na Grécia, é citado por quase todos os pensadores. Homero refere-se, na Odisseia, a Circe, que transforma os companheiros de Ulisses em porcos. Hércules enfrenta o javali de Erimateia. E Teseu, a porca de Crommyon. Na idade média a carne de maior prestígio, em toda a Europa, era a de porco. Além de saborosa, essa carne definia, nos tempos da inquisição, cristãos (os que a tinham à mesa) e judeus (proibidos desse consumo). Porcos eram engordados com restos de comidas, na “corte” – nome dado a pocilgas situadas junto às casas, sendo a matança desses porcos “exemplo supremo de festa lúdica”. Fazia-se “o cozido da matança” com carnes frescas ou salgadas (rabo, orelha, barbela, focinho), além de enchidos (chouriço, linguiça, cacholeira e farinheira), de porco morto no ano anterior. Do porco tudo se aproveita. Mas o porco vem mudando, com o tempo. O de hoje é “light”. Tem menos gordura, mais músculo e mais carne no lombo (a mais apreciada). Por meio de cruzamentos e mudanças na dieta, perdeu cerca de 30% de sua gordura primitiva, 14% de calorias e 10% de colesterol, julgo saber. Como se não bastasse, o porco também fornece órgãos para serem transplantados no homem, tendo as suas válvulas para implante no coração melhor qualidade e mais aceitação que as de material sintético. Com tantas qualidades, já se vê o quanto de injustiça há na fama que têm os porcos na nossa cultura. Talvez pensando nessa injustiça, em sua defesa veio o estadista inglês Winston Churchill. É dele a observação, generosa, de que “cães olham para si de baixo para cima. Os gatos olham para si de cima para baixo. Só os porcos olham para si olho no olho, como iguais”. Apesar de tantos arroubos, um dos seus pratos preferidos era precisamente porco.
Gustave Gousteau, in Jornal Beirão, 2009
domingo, 4 de abril de 2010
Pedaços de Linguagem
Pedaços de Linguagem
Ana Oliveira
A Linguagem da Alice, do Chapeleiro Maluco e do Coelho Branco
Sendo usualmente retratado como um homem baixo, com uma cartola grande e uma carta na faixa que o envolve, o Chapeleiro surge numa parte em que ele e a Lebre de Março (uma lebre falante) convidam Alice para beber chá. Ele é ainda lembrado por um personagem baseado nele que aparece na Banda Desenhada de Batman chamado Jervis Tetch, mas que adopta o nome de Chapeleiro Louco (Mad Hatter). O livro é uma viagem. Numa linguagem fácil e descontraída, nada é nonsense! Aquelas metáforas dão vazão à criança que sempre existirá dentro de nós, mesmo que nos transformemos numa carcaça ambulante que vai morrer, não quer morrer – resiste.Fica claro mais do que nunca que o melhor escape é sonhar! Quem perder essa capacidade, já era e nem percebeu! Sonhos malucos ou não, que sejam concretos! Viver é brincar com a imaginação, tornar um dia entediante num gozo puro! E é sonhando que a história de Alice começa e é assim que a de todos nós deve continuar.
O livro pode ser interpretado de várias maneiras. Uma das interpretações diz que a história representa a adolescência, com uma entrada súbita e inesperada (a queda na toca do coelho, iniciando a aventura), além das diversas mudanças de tamanho e a confusão que isso causa em Alice, ao ponto de ela dizer que não sabe mais quem é após tantas transformações (o que se identifica com a psicologia adolescente). Também é possível dizer que a obra faz referências a questões de lógica e à matemática, matéria que Carroll leccionava. Um exemplo é o debate que Alice faz com o Chapeleiro e a Lebre de Março sobre relações inversas (o Chapeleiro argumenta que ver o que se come não é o mesmo que comer o que se vê). Carroll também faz referências à língua francesa, como no capítulo 2, onde Alice se comunica com um camundongo em francês, perguntando "Où est ma chatte?" ("onde está a minha gata"), o que o deixa assustado. Além disso, no capítulo 4, um criado do Coelho Branco diz que estava a cavar maçãs, uma provável referência à expressão que significa "batata" em francês, "pomme de terre"; a tradução literal dessa expressão é "maçã da terra".
O nonsense de Carroll continha um elemento extra na formação do texto: a matemática. A obra de Carroll foi constituída através de jogos de linguagem, baseados na Lógica, nos quais os capítulos só terminam quando as proposições se esgotam. Carroll usou os seus conhecimentos matemáticos e lógicos para construir proposições em Alice no País da Maravilhas, sendo muitas vezes o significado particular da frase superado pela forma, sugerindo brincadeiras comuns da época.
A análise do sumário da obra, observando os títulos dos capítulos, permite ver uma colagem de histórias, casos curtos que poderiam existir independentemente, se não fosse a intenção do autor escrever um verdadeiro conto de fadas, tornando a viagem pelo país das maravilhas um sonho de Alice, e fazendo a correspondência ao episódio inicial em que ela lê um livro enfadonho antes de cair no sono. A Lagoa de Lágrimas, Um Chá Maluco e O Campo de Críquet da Rainha são capítulos que remetem o leitor a cenas muito visuais, seja pela descrição nada usual dos acontecimentos ou pelo inusitado dos diálogos. A concordância entre o início e o final aparece como uma prova de coerência na construção da narrativa, pois os leitores não exigem uma lógica total dos acontecimentos dentro do romance, uma vez que se trata do enredo de um sonho, universo onde as coisas mais incomuns são aceites como naturais.
Em toda a história de Alice são encontrados 24 poemas, entre os quais 10 são paródias de poemas e canções inglesas da época de Lewis Carroll. “Os poemas e os versos que Alice recita, e que parecem não ter sentido nenhum, são sátiras aos poemas enfadonhos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de cor.” A posição de Alice, de mãos unidas, ao fazer
récitas indica que era exigido das crianças da época saber as lições de cor.
O dia do chá maluco não é uma data qualquer, é o dia do aniversário de Alice Liddell, 4 de Maio. Ninguém diria a uma menina vitoriana que o seu cabelo estava comprido demais. A observação “o seu cabelo está a precisar de um corte” dita pelo Chapeleiro Louco, na verdade, era uma frase muito ouvida por Carroll, pois este usava os cabelos mais longos do que era costume. A parte na qual a Lebre de Março e o Chapeleiro Louco tentam enfiar o Caxinguelê no bule de chá pode estar relacionada com o facto de que crianças vitorianas costumavam ter ratinhos como bichos de estimação e conservavam-nos dentro de bules cheios de capim ou feno.
A Lebre de Março refere-se ao mês do cio das lebres; o Chapeleiro é louco por causa de uma substância alucinogénea usada na fabricação de chapéus; o Leirão dorme muito por ser um animal que hiberna no inverno e a Falsa Tartaruga refere-se à sopa de falsa tartaruga, que na verdade é feita com carne de vitela.
Durante uma conversa com a duquesa, Alice fica indecisa entre classificar mostarda como animal, mineral ou vegetal. Trata-se de uma referência ao popular jogo de salão vitoriano “animal, vegetal, mineral”, em que os jogadores tentavam adivinhar o que alguém tinha em mente. As primeiras perguntas feitas eram tradicionalmente: É um animal? É um
vegetal? É um mineral? As respostas tinham de ser sim ou não, e o objectivo era adivinhar correctamente em 20 perguntas ou menos. Devido às semelhanças no comprimento dos nomes, e às posições das vogais, consoantes e letras duplas no último nome, acredita-se que Charles tenha se inspirado na formação do nome de Alice Liddell para criar o seu pseudónimo Lewis Carroll. Para fazer uma adaptação não muito distante da obra literária original, apenas a apropriação do tema não é suficiente; é também necessário resgatar o trabalho com a linguagem característica do texto em questão. Quando a época em que tal obra foi escrita e a época em qual a adaptação é lançada diferem muito, essa captação da linguagem se torna algo extremamente trabalhoso, se não impossível. Afinal, a mentalidade e a ideologia dos leitores já vai ser totalmente diferente. E, já que a isso se soma o facto de que os países envolvidos são diferentes, fazer uma adaptação - diga-se, tradução - envolve variações culturais bruscas, dificultando ainda mais o entendimento dos leitores.
Com "Alice no País das Maravilhas", a situação não é muito diferente - na verdade, é até mais difícil, já que os complexos simbolismos de Carroll estão directamente ligados à cultura inglesa do século XIX. Isso acarreta uma perda cultural nas traduções. O livro de Carroll é marcado por jogos entre os sons semelhantes de palavras diferentes e os significados captados pelos personagens, o que gera ruídos na comunicação. Para passar a português trechos contendo esses jogos, as edições brasileiras fizeram a tradução com base na ideia de que a relevância está nessa brincadeira, nos seus sons, e não no significado do signo. Ainda assim, fazer a tradução dessas palavras mostra-se um árduo trabalho. Um dos trechos em que os tradutores devem ter sentido essa dificuldade é o de quando o Gato pergunta a Alice o que havia acontecido ao filho da Duquesa e a menina responde que ele virara um porco (“pig”, em inglês). Algum tempo depois, ele retorna e pergunta se ela havia dito “porco ou corvo”. Na versão inglesa, a palavra de som semelhante a “pig” utilizada é “fig” (que seria "figo" em português). Os signos “corvo” e “figo” nada têm de semelhante, mas foi a solução encontrada pelos tradutores para que o não entendimento do Gato diante da fala da garota e o jogo de palavras de Carroll sejam captados pelos leitores. Há também os casos em que o trecho original remete não só a um jogo de palavras e sons, mas também a um sentido que alude a um significado específico. Na tradução, esse sentido muitas vezes perde-se, pois apenas o jogo foi considerado.
Compare as versões:
Versão em inglês
‘...I hadn’t begun my tea – not above a week or so – and what with the bread-and-butter getting so thin – and the twinkling of the tea – ’
‘The twinkling of what?’ said the King.
‘It began with the tea,’ the Hatter replied.
‘Off course twinkling begins with a T’
Tradução literal
‘Eu não tinha começado o meu chá – não mais que uma semana – e com o pão com a manteiga ficando finos – e o cintilar do chá –’
‘O cintilar de quê?’ disse o Rei.
‘Começou com o chá,’ replicou o Chapeleiro.
‘É claro que cintilar começa com um T’”
Tradução do Livro ‘e nem tinha começado a tomar o meu chá...há não mais que uma semana, mais ou menos...e o pão com manteiga ficando cada ve mais fino...e o chacoalhar do chá...'
‘O chachoalhar do quê?' disse o Rei.
‘Começou com o chá', respondeu o Chapeleiro.
‘Claro que chacoalhar começa com chá!"
Na tradução feita, a brincadeira com as palavras é mantida, mas não o sentido do trecho. O Chapeleiro, ao afirmar o "cintilar do chá", referia-se à canção mencionada por ele mais cedo, durante a cena do chá maluco. Ele referia-se ao cintilar da "bandeja de chá" ("tea-tray", em inglês), quando foi cortado pelo Rei, que confundiu o som de "tea" com o da a letra "T".
In Jornal Beirão 3/10
Ana Oliveira
A Linguagem da Alice, do Chapeleiro Maluco e do Coelho Branco
Sendo usualmente retratado como um homem baixo, com uma cartola grande e uma carta na faixa que o envolve, o Chapeleiro surge numa parte em que ele e a Lebre de Março (uma lebre falante) convidam Alice para beber chá. Ele é ainda lembrado por um personagem baseado nele que aparece na Banda Desenhada de Batman chamado Jervis Tetch, mas que adopta o nome de Chapeleiro Louco (Mad Hatter). O livro é uma viagem. Numa linguagem fácil e descontraída, nada é nonsense! Aquelas metáforas dão vazão à criança que sempre existirá dentro de nós, mesmo que nos transformemos numa carcaça ambulante que vai morrer, não quer morrer – resiste.Fica claro mais do que nunca que o melhor escape é sonhar! Quem perder essa capacidade, já era e nem percebeu! Sonhos malucos ou não, que sejam concretos! Viver é brincar com a imaginação, tornar um dia entediante num gozo puro! E é sonhando que a história de Alice começa e é assim que a de todos nós deve continuar.
O livro pode ser interpretado de várias maneiras. Uma das interpretações diz que a história representa a adolescência, com uma entrada súbita e inesperada (a queda na toca do coelho, iniciando a aventura), além das diversas mudanças de tamanho e a confusão que isso causa em Alice, ao ponto de ela dizer que não sabe mais quem é após tantas transformações (o que se identifica com a psicologia adolescente). Também é possível dizer que a obra faz referências a questões de lógica e à matemática, matéria que Carroll leccionava. Um exemplo é o debate que Alice faz com o Chapeleiro e a Lebre de Março sobre relações inversas (o Chapeleiro argumenta que ver o que se come não é o mesmo que comer o que se vê). Carroll também faz referências à língua francesa, como no capítulo 2, onde Alice se comunica com um camundongo em francês, perguntando "Où est ma chatte?" ("onde está a minha gata"), o que o deixa assustado. Além disso, no capítulo 4, um criado do Coelho Branco diz que estava a cavar maçãs, uma provável referência à expressão que significa "batata" em francês, "pomme de terre"; a tradução literal dessa expressão é "maçã da terra".
O nonsense de Carroll continha um elemento extra na formação do texto: a matemática. A obra de Carroll foi constituída através de jogos de linguagem, baseados na Lógica, nos quais os capítulos só terminam quando as proposições se esgotam. Carroll usou os seus conhecimentos matemáticos e lógicos para construir proposições em Alice no País da Maravilhas, sendo muitas vezes o significado particular da frase superado pela forma, sugerindo brincadeiras comuns da época.
A análise do sumário da obra, observando os títulos dos capítulos, permite ver uma colagem de histórias, casos curtos que poderiam existir independentemente, se não fosse a intenção do autor escrever um verdadeiro conto de fadas, tornando a viagem pelo país das maravilhas um sonho de Alice, e fazendo a correspondência ao episódio inicial em que ela lê um livro enfadonho antes de cair no sono. A Lagoa de Lágrimas, Um Chá Maluco e O Campo de Críquet da Rainha são capítulos que remetem o leitor a cenas muito visuais, seja pela descrição nada usual dos acontecimentos ou pelo inusitado dos diálogos. A concordância entre o início e o final aparece como uma prova de coerência na construção da narrativa, pois os leitores não exigem uma lógica total dos acontecimentos dentro do romance, uma vez que se trata do enredo de um sonho, universo onde as coisas mais incomuns são aceites como naturais.
Em toda a história de Alice são encontrados 24 poemas, entre os quais 10 são paródias de poemas e canções inglesas da época de Lewis Carroll. “Os poemas e os versos que Alice recita, e que parecem não ter sentido nenhum, são sátiras aos poemas enfadonhos que as crianças inglesas daquela época tinham que saber de cor.” A posição de Alice, de mãos unidas, ao fazer
récitas indica que era exigido das crianças da época saber as lições de cor.
O dia do chá maluco não é uma data qualquer, é o dia do aniversário de Alice Liddell, 4 de Maio. Ninguém diria a uma menina vitoriana que o seu cabelo estava comprido demais. A observação “o seu cabelo está a precisar de um corte” dita pelo Chapeleiro Louco, na verdade, era uma frase muito ouvida por Carroll, pois este usava os cabelos mais longos do que era costume. A parte na qual a Lebre de Março e o Chapeleiro Louco tentam enfiar o Caxinguelê no bule de chá pode estar relacionada com o facto de que crianças vitorianas costumavam ter ratinhos como bichos de estimação e conservavam-nos dentro de bules cheios de capim ou feno.
A Lebre de Março refere-se ao mês do cio das lebres; o Chapeleiro é louco por causa de uma substância alucinogénea usada na fabricação de chapéus; o Leirão dorme muito por ser um animal que hiberna no inverno e a Falsa Tartaruga refere-se à sopa de falsa tartaruga, que na verdade é feita com carne de vitela.
Durante uma conversa com a duquesa, Alice fica indecisa entre classificar mostarda como animal, mineral ou vegetal. Trata-se de uma referência ao popular jogo de salão vitoriano “animal, vegetal, mineral”, em que os jogadores tentavam adivinhar o que alguém tinha em mente. As primeiras perguntas feitas eram tradicionalmente: É um animal? É um
vegetal? É um mineral? As respostas tinham de ser sim ou não, e o objectivo era adivinhar correctamente em 20 perguntas ou menos. Devido às semelhanças no comprimento dos nomes, e às posições das vogais, consoantes e letras duplas no último nome, acredita-se que Charles tenha se inspirado na formação do nome de Alice Liddell para criar o seu pseudónimo Lewis Carroll. Para fazer uma adaptação não muito distante da obra literária original, apenas a apropriação do tema não é suficiente; é também necessário resgatar o trabalho com a linguagem característica do texto em questão. Quando a época em que tal obra foi escrita e a época em qual a adaptação é lançada diferem muito, essa captação da linguagem se torna algo extremamente trabalhoso, se não impossível. Afinal, a mentalidade e a ideologia dos leitores já vai ser totalmente diferente. E, já que a isso se soma o facto de que os países envolvidos são diferentes, fazer uma adaptação - diga-se, tradução - envolve variações culturais bruscas, dificultando ainda mais o entendimento dos leitores.
Com "Alice no País das Maravilhas", a situação não é muito diferente - na verdade, é até mais difícil, já que os complexos simbolismos de Carroll estão directamente ligados à cultura inglesa do século XIX. Isso acarreta uma perda cultural nas traduções. O livro de Carroll é marcado por jogos entre os sons semelhantes de palavras diferentes e os significados captados pelos personagens, o que gera ruídos na comunicação. Para passar a português trechos contendo esses jogos, as edições brasileiras fizeram a tradução com base na ideia de que a relevância está nessa brincadeira, nos seus sons, e não no significado do signo. Ainda assim, fazer a tradução dessas palavras mostra-se um árduo trabalho. Um dos trechos em que os tradutores devem ter sentido essa dificuldade é o de quando o Gato pergunta a Alice o que havia acontecido ao filho da Duquesa e a menina responde que ele virara um porco (“pig”, em inglês). Algum tempo depois, ele retorna e pergunta se ela havia dito “porco ou corvo”. Na versão inglesa, a palavra de som semelhante a “pig” utilizada é “fig” (que seria "figo" em português). Os signos “corvo” e “figo” nada têm de semelhante, mas foi a solução encontrada pelos tradutores para que o não entendimento do Gato diante da fala da garota e o jogo de palavras de Carroll sejam captados pelos leitores. Há também os casos em que o trecho original remete não só a um jogo de palavras e sons, mas também a um sentido que alude a um significado específico. Na tradução, esse sentido muitas vezes perde-se, pois apenas o jogo foi considerado.
Compare as versões:
Versão em inglês
‘...I hadn’t begun my tea – not above a week or so – and what with the bread-and-butter getting so thin – and the twinkling of the tea – ’
‘The twinkling of what?’ said the King.
‘It began with the tea,’ the Hatter replied.
‘Off course twinkling begins with a T’
Tradução literal
‘Eu não tinha começado o meu chá – não mais que uma semana – e com o pão com a manteiga ficando finos – e o cintilar do chá –’
‘O cintilar de quê?’ disse o Rei.
‘Começou com o chá,’ replicou o Chapeleiro.
‘É claro que cintilar começa com um T’”
Tradução do Livro ‘e nem tinha começado a tomar o meu chá...há não mais que uma semana, mais ou menos...e o pão com manteiga ficando cada ve mais fino...e o chacoalhar do chá...'
‘O chachoalhar do quê?' disse o Rei.
‘Começou com o chá', respondeu o Chapeleiro.
‘Claro que chacoalhar começa com chá!"
Na tradução feita, a brincadeira com as palavras é mantida, mas não o sentido do trecho. O Chapeleiro, ao afirmar o "cintilar do chá", referia-se à canção mencionada por ele mais cedo, durante a cena do chá maluco. Ele referia-se ao cintilar da "bandeja de chá" ("tea-tray", em inglês), quando foi cortado pelo Rei, que confundiu o som de "tea" com o da a letra "T".
In Jornal Beirão 3/10
O melhor do mundo são as crianças
O Melhor do Mundo são as Crianças…
No mundo de hoje, a abertura e a tolerância são o mote presente em todas as circunstâncias. Aceitam-se as uniões de facto e os casamentos homossexuais, mas não há dose de tolerância suficiente para nos fazer compreender a pedofilia fora do âmbito da patologia. Muito se tem falado deste fenómeno que mancha a sociedade a propósito de casos que aconteceram na Suíça e, de há cinco anos a esta parte, bem mais perto de nós, na Casa Pia. De vez em quando, surge a notícia de que este ou aquele professor foi acusado de seduzir alunos. No entanto, mais arrepiante, ainda, é a onda de escândalos de pedofilia que tem vindo a afectar a igreja católica em países como a Irlanda, a Holanda, a Alemanha, a Áustria, a Espanha e os Estados Unidos e que tem estado na origem de debates sobre as repercussões do celibato e da abstinência sexual nos sacerdotes, tradição milenar que o Vaticano continua a defender de modo ferrenho, argumentando que a maioria dos casos de abuso acontece dentro da família e não em meios religiosos, por isso tal posição não passa de uma instrumentalização das recentes denúncias de pedofilia.
A gravidade das suspeitas levantadas, que também envolvem a alegada conivência do papa Bento XVI, obriga a um esclarecimento convincente e urgente por parte da Igreja sem qualquer tentativa de escopo na fragilidade de um líder de 83 anos que já não consegue acompanhar um acto religioso sem o recurso ao “papamóvel”. Uma religião, seja ela qual for, usufrui de um papel importante nas sociedades, em geral, e no indivíduo, em particular, enquanto veículo de transmissão e de garantia da preservação de determinados valores, mas usar da boa fé dos seguidores para exercer actos que negam os princípios mais elementares é uma política desastrosa, na medida em que derruba qualquer alicerce, independentemente da força da sua sedimentação. O triste episódio “Murphy” passado com crianças surdas e outros que já fazem lista por muitos lados, incluindo também nomes portugueses, estão a movimentar grupos de católicos que pretendem questionar o papa, exigindo dele, no pleno desempenho do instituído estatuto de representante de Deus na Terra, uma tomada de posição firme e disciplinadora, mas, sobretudo, dissuasora de repetições e recidivas. Ignorar que se vive a pior crise do pontificado de Ratzinger não será a melhor solução; todavia encetar um processo de vitimização traduzir-se-á, seguramente, numa estratégia errada, já que o slogan “caça às bruxas” faz-nos lembrar acontecimentos passados que pouco abonam a favor da Madre Igreja.
É imperioso que as famílias católicas consigam reatar a confiança nos membros do clero, sob pena de ser irremediável a perda de fiéis que, cada vez mais, escasseiam nas cerimónias dominicais. Muita da fé perdeu-se devido a algum fundamentalismo temperado com posições retrógradas e desfasadas das realidades sociais, mas provar-se que padres e bispos foram protagonistas em actos de pedofilia e mereceram o silêncio por parte dos seus responsáveis hierárquicos poderá ser a machadada decisiva na grande congregação dos católicos do mundo. Nunca nos esqueçamos de que estamos a reportar-nos a países ditos desenvolvidos e não a países de um mundo, tantas vezes olhado como menor, em que as crenças ditam, por exemplo, que estabelecer relações sexuais com bebés, por serem crianças sem mácula, pode curar a SIDA.
Pugnemos todos, ultrapassando as diferenças de qualquer ordem, por vivermos num espaço social que se coadune com as sábias palavras pessoanas, sempre actuais, “grande é a poesia, a bondade e as danças…/ mas o melhor do mundo são as crianças…”
Teresa Adão, in Jornal Beirão, 3/10
No mundo de hoje, a abertura e a tolerância são o mote presente em todas as circunstâncias. Aceitam-se as uniões de facto e os casamentos homossexuais, mas não há dose de tolerância suficiente para nos fazer compreender a pedofilia fora do âmbito da patologia. Muito se tem falado deste fenómeno que mancha a sociedade a propósito de casos que aconteceram na Suíça e, de há cinco anos a esta parte, bem mais perto de nós, na Casa Pia. De vez em quando, surge a notícia de que este ou aquele professor foi acusado de seduzir alunos. No entanto, mais arrepiante, ainda, é a onda de escândalos de pedofilia que tem vindo a afectar a igreja católica em países como a Irlanda, a Holanda, a Alemanha, a Áustria, a Espanha e os Estados Unidos e que tem estado na origem de debates sobre as repercussões do celibato e da abstinência sexual nos sacerdotes, tradição milenar que o Vaticano continua a defender de modo ferrenho, argumentando que a maioria dos casos de abuso acontece dentro da família e não em meios religiosos, por isso tal posição não passa de uma instrumentalização das recentes denúncias de pedofilia.
A gravidade das suspeitas levantadas, que também envolvem a alegada conivência do papa Bento XVI, obriga a um esclarecimento convincente e urgente por parte da Igreja sem qualquer tentativa de escopo na fragilidade de um líder de 83 anos que já não consegue acompanhar um acto religioso sem o recurso ao “papamóvel”. Uma religião, seja ela qual for, usufrui de um papel importante nas sociedades, em geral, e no indivíduo, em particular, enquanto veículo de transmissão e de garantia da preservação de determinados valores, mas usar da boa fé dos seguidores para exercer actos que negam os princípios mais elementares é uma política desastrosa, na medida em que derruba qualquer alicerce, independentemente da força da sua sedimentação. O triste episódio “Murphy” passado com crianças surdas e outros que já fazem lista por muitos lados, incluindo também nomes portugueses, estão a movimentar grupos de católicos que pretendem questionar o papa, exigindo dele, no pleno desempenho do instituído estatuto de representante de Deus na Terra, uma tomada de posição firme e disciplinadora, mas, sobretudo, dissuasora de repetições e recidivas. Ignorar que se vive a pior crise do pontificado de Ratzinger não será a melhor solução; todavia encetar um processo de vitimização traduzir-se-á, seguramente, numa estratégia errada, já que o slogan “caça às bruxas” faz-nos lembrar acontecimentos passados que pouco abonam a favor da Madre Igreja.
É imperioso que as famílias católicas consigam reatar a confiança nos membros do clero, sob pena de ser irremediável a perda de fiéis que, cada vez mais, escasseiam nas cerimónias dominicais. Muita da fé perdeu-se devido a algum fundamentalismo temperado com posições retrógradas e desfasadas das realidades sociais, mas provar-se que padres e bispos foram protagonistas em actos de pedofilia e mereceram o silêncio por parte dos seus responsáveis hierárquicos poderá ser a machadada decisiva na grande congregação dos católicos do mundo. Nunca nos esqueçamos de que estamos a reportar-nos a países ditos desenvolvidos e não a países de um mundo, tantas vezes olhado como menor, em que as crenças ditam, por exemplo, que estabelecer relações sexuais com bebés, por serem crianças sem mácula, pode curar a SIDA.
Pugnemos todos, ultrapassando as diferenças de qualquer ordem, por vivermos num espaço social que se coadune com as sábias palavras pessoanas, sempre actuais, “grande é a poesia, a bondade e as danças…/ mas o melhor do mundo são as crianças…”
Teresa Adão, in Jornal Beirão, 3/10
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